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Transparência nas ações Sociais como estratégia de Crescimento - sua importância
– do Balanço Social do Ibase ao GRI

A transparência e a inserção da responsabilidade social no planejamento estratégico passaram a ser uma questão fundamental para concorrer no mercado. No acelerado processo de assimilação de novos conceitos que caracteriza executivos e empresários brasileiros, uma coisa já está bastante clara para a maioria deles: balanço social é um bom negócio.
A partir desse momento, o Balanço Social começou a fazer parte da realidade de algumas corporações, principalmente empresas de exploração de petróleo, gás, minério, que vinham sendo alvos de sanções de órgãos públicos fiscalizadores e de constantes críticas das ONGs criadas após a ECO 92 - conferência realizada no Rio de Janeiro com objetivo de discutir os danos causados ao meio ambiente ao longo dos anos e que consagrou o conceito “desenvolvimento sustentável”.
As empresas estão entendendo depressa que a publicação do balanço social não pode ser mais uma mera iniciativa de marketing, para "cumprir uma obrigação empresarial". O mercado - tanto o financeiro como o consumidor final - não se contenta mais com demonstrativos numéricos de desempenho comercial. O balanço social é um instrumento de diagnóstico corporativo: uma ferramenta de gestão dentro do planejamento estratégico que pode e deve ser utilizada para criação e acompanhamento de metas e deve ser desenvolvido pela alta gerência com a participação e envolvimento de suas equipes.
"Não adianta uma empresa falar que pratica a responsabilidade social e ficar só no blá-blá-blá. Precisa comprovar". Esta é a opinião do coordenador do projeto Balanço Social do Ibase (Instituo Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), pesquisador e sociólogo Ciro Torres. Para isso, o Instituto criou o chamado balanço social. "É um demonstrativo no qual a empresa publica o que faz por seus profissionais, dependentes, colaboradores e comunidade, dando transparência às atividades que buscam melhorar a qualidade de vida para todos".
Muito mais que mostrar a transparência das empresas, o balanço social, ainda de acordo com o Ibase, favorece todos os grupos que interagem com a ela. "Para os dirigentes, fornece informações úteis à tomada de decisões relativas aos programas sociais que a empresa desenvolve. Seu processo de realização estimula a participação dos funcionários na escolha das ações e projetos sociais, melhorando a comunicação interna e integração nas relações entre dirigentes e o corpo funcional. Aos fornecedores e investidores, informa como a empresa assume suas responsabilidades em relação aos recursos humanos e à natureza, um bom indicador de como a empresa é administrada. Ao Estado, ajuda na identificação e na formulação de políticas públicas. E, por fim, para os consumidores, indica a postura de dirigentes e a qualidade do produto ou serviço oferecido, demonstrando o caminho que a empresa escolheu para construir sua marca".
"O grande potencial de utilização do balanço social decorre do fato de que ele não é um simples demonstrativo das iniciativas sociais da empresa. Muito mais que isso, é uma ferramenta estratégica, que permite à empresa planejar, avaliar e aperfeiçoar sua gestão do ponto de vista da responsabilidade social. Ele dá transparência às ações e mostra a qualidade das relações da empresa com os vários públicos impactados por suas atividades. Dessa maneira, pode ser uma excelente referência da sustentabilidade dos negócios da empresa." Segundo Roberto Gonzalez, diretor de Estratégia Social da CorpBrasil e assessor especial para assuntos de responsabilidade social da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), no Brasil há algumas empresas que começaram a incorporar estes conceitos há alguns anos. Isso resultou em aumento de produtividade, do market share e em outros indicadores.
"Amplia-se o reconhecimento do balanço social como um dos principais instrumentos de avaliação dos riscos, de prestação de contas, de diálogo e de transparência das empresas. É um documento de construção de pontes entre a empresa e os diversos públicos com os quais ela se relaciona: funcionários, fornecedores, clientes, comunidade, concorrentes, acionistas, agentes financeiros e organizações setoriais", diz Paulo Itacarambi, diretor-executivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.
Itacarambi vai mais além, diz que não deve ser confundido com uma peça de marketing, já que não se restringe às experiências de sucesso. "Seu papel é bem mais amplo. Como avaliação e diagnóstico anual, deve expor as metas que haviam sido planejadas para o período e as dificuldades encontradas para sua realização, discriminando aquelas que foram superadas e as que se mantêm. É necessário que apresente um posicionamento da empresa com relação ao futuro, explicitando compromissos, objetivos e mecanismos para atingi-los."
            Mas isso existe e já é aplicado como diferencial competitivo em empresas como a Natura que vem inovando, por decisão da presidência, criando alternativas sustentáveis para seus produtos, além de novas formas de comunicar sua preocupação real com o meio ambiente (a empresa inclui uma “tabela ambiental” em suas embalagens, semelhante às tabelas nutricionais apresentadas em alimentos, que indicam o impacto da fabricação do produto e de sua embalagem no meio ambiente). O resultado disso é que hoje a Natura é uma das empresas mais valorizadas do país, referência na questão de responsabilidade social por conta do amplo trabalho de conscientização ambiental que patrocina e difunde.
Outro destaque, segundo ele, é Companhia Siderúrgica Tubarão (CST), que tem um grau elogiável de interação e integração com a comunidade onde está instalada, no Espírito Santo.
Há também o caso da Usiminas. Há um ano, uma ação da empresa valia R$ 6; hoje, vale R$ 25. A empresa é considerada no mercado brasileiro como uma das que mais tiveram êxito na divulgação de suas ações na área de responsabilidade social.
Adesão ao GRI, o único padrão global de divulgação de informações financeiras, ambientais e sociais - O balanço do futuro
Empresas de todo o mundo estão aderindo ao GRI, o único padrão global de divulgação de informações financeiras, ambientais e sociais
Por Lucia Kassai - Guia Exame de Sustentabilidade 2007
Desde que o primeiro balanço social foi publicado no Brasil, em 1986, pela fabricante de fertilizantes Nitrofértil (mais tarde absorvida pela Petrobras), muita coisa mudou. Na época, a principal preocupação da Nitrofértil era relatar suas relações com os funcionários. Passadas duas décadas, as empresas não só descrevem seu relacionamento com empregados como também com fornecedores, meio ambiente, comunidades nas quais suas operações estão inseridas, investidores e órgãos de governo - um calhamaço de informações que pode alcançar 200 páginas e hoje é mais conhecido como relatório de sustentabilidade. Aos poucos, um padrão de divulgação dessas informações foi se estabelecendo em todo o planeta. Trata-se do Global Reporting Initiative (GRI), único modelo aceito mundialmente. Desenvolvido por uma organização independente de mesmo nome, sediada na Holanda, o GRI já é usado por 850 empresas, entre elas Microsoft, Unilever e BP.
No Brasil, onde se estima que cerca de 300 empresas publiquem balanços socioambientais, 50 aderiram ao GRI (boa parte delas adota o modelo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, Ibase, mais simples que o GRI). Em 2002, eram apenas quatro empresas. O que explica a crescente popularidade do modelo é o fato de que, ao estabelecer um padrão único, ele permite que os relatórios sejam comparados, assim como acontece há muito tempo com os balanços financeiros. Essa comparação acaba trazendo resultados práticos para as empresas. Depois de adotar o GRI, a siderúrgica mineira Usiminas conseguiu descobrir, por exemplo, que seus investimentos em cultura eram inferiores aos das concorrentes do mesmo porte. "O GRI nos deu mais clareza sobre onde investíamos e em quais áreas poderíamos fazer mais", diz Denis Freitas, gerente de remuneração e benefícios da Usiminas. De 2000 para 2006, a empresa aumentou em cerca de 300% os valores destinados a projetos culturais, hoje na casa dos 22 milhões de reais por ano.
Também como fruto desse exercício de comparação é que ela decidiu que se tornaria a primeira siderúrgica na América Latina a obter as certificações européias RoHs e ELV, que atestam a produção de aço com baixos níveis de substâncias nocivas, como o chumbo. Os selos foram obtidos no segundo semestre deste ano - e a Usiminas considera que a conquista ajuda a aumentar sua competitividade. Não são raros também os casos de companhias que, ao adotar a metodologia, descobrem que não divulgam com precisão algumas das ações que desenvolvem. "Simplesmente não colocávamos no relatório que o papel que destinamos para a reciclagem é doado a ONGs", diz Helena Catharina Carvalho, superintendente de comunicação interna e institucional.
Ao estabelecer certa normatização para os relatórios de sustentabilidade, o GRI também caiu nas graças dos administradores de fundos de investimento especializados em ações de companhias sustentáveis. "Ele é, sem dúvida, uma boa ferramenta de análise dos balanços não financeiros", afirma Todd Larsen, diretor de comunicação corporativa do Social Investment Forum, associação americana com sede em Washington que representa analistas, gestores de carteira, instituições financeiras e de pesquisa que trabalham com a análise de investimentos responsáveis. Estima-se que esses fundos administrem ativos de 179 bilhões de dólares só nos Estados Unidos. A adoção do GRI também é pré-requisito para as empresas que pleiteiam fazer parte da carteira do Índice Dow Jones de Sustentabilidade, que reúne empresas socialmente responsáveis cotadas na bolsa de Nova York.
Fazer um relatório nos moldes do GRI é uma tarefa hercúlea. O manual de uso da metodologia em português tem 205 páginas e especifica 79 indicadores econômicos, sociais e ambientais. Eles abrangem desde o consumo de energia e água até a composição da administração de acordo com gênero e raça, passando pelo impacto dos produtos nos consumidores, acidentes de trabalho e volume de emissões de gases de efeito estufa. "O primeiro GRI marca uma empresa para sempre", diz Andréia Marques, gerente de responsabilidade social da Medley, indústria farmacêutica que adotou neste ano pela primeira vez o padrão internacional.
Para cumprir a tarefa, o laboratório envolveu durante cinco meses 60 funcionários no processo de coleta de informações, entre supervisores, gerentes, diretores e o próprio presidente. A Medley também passou a fazer parte de um grupo de estudos sobre a metodologia coordenado pelo Instituto Ethos e pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces), da FGV, na companhia de outras sete empresas veteranas no uso do GRI. Com a troca de experiências, a empresa concluiu, por exemplo, que seria melhor publicar uma versão completa do relatório para distribuir a ONGs, entidades de classe e bancos, e outra mais simplificada para entregar à comunidade médica. "É extremamente importante para nós que esse público saiba o que estamos fazendo, mas entendemos que os médicos têm pouco tempo para leitura", diz Andréia.

SERVIÇO DE VERIFICAÇÃO
Apesar dos avanços, o GRI não está imune às críticas dos especialistas. Uma delas é a que, como o modelo pressupõe adesão voluntária, não existe obrigatoriedade de as empresas reportarem todos os indicadores. Com isso, algumas companhias deixam de lado aspectos críticos ou delicados. "Isso nos obriga muitas vezes a buscar informações em outras fontes, como registros judiciais e notícias na imprensa", diz Larsen, do Social Investment Forum. A anglo-holandesa Shell é uma das raras companhias a expor todos os seus problemas. Desde 2004, a Shell registra no documento o número exato de casos de suborno que envolvem funcionários em todo o mundo. Em 2006, por exemplo, foram 96 - que, segundo a empresa, resultaram na demissão de 143 pessoas.
            Outra vulnerabilidade é que o GRI não exige que os balanços sejam auditados por uma firma independente - embora a prática seja fortemente recomendada. Além disso, ele permite que as empresas baixem em seu site, sem qualquer dificuldade, selos da entidade para estampá-los nos documentos. Na teoria, deveriam usar o selo A+ as empresas que submetem seus relatórios a um crivo externo e reportam todos os indicadores que são relevantes ao negócio. Na prática, porém, como a organização não tem poder de fiscalização, o correto uso dos selos - que vão de A+ a C+, dependendo da relevância das informações relatadas - está atrelado à idoneidade da empresa. "Assumimos que as companhias são éticas em vincular sua imagem à da entidade, mas não podemos garantir que isso ocorre em 100% dos casos", afirma Gláucia Terreo, representante do GRI no Brasil.
            Para dar mais segurança aos públicos que usam os relatórios como fonte de informação, o GRI passou a oferecer no ano passado um serviço de verificação. Quem submete voluntariamente suas demonstrações à entidade ganha, então, o direito de estampar outro selo, o "GRI checked". Das 50 empresas que publicam relatórios com as diretrizes no Brasil, quatro ganharam o novo selo: Petrobras, Serasa, Copel e banco Real. Segundo especialistas, provar que o que foi reportado corresponde à realidade - por meio desse selo ou por auditorias externas - é uma tendência inexorável. Além disso, profissionais das áreas financeira e de relações com investidores das companhias devem, cada vez mais, se envolver na elaboração do GRI. "Como ele será cada vez mais usado para complementar a análise financeira das empresas, é natural que sua elaboração seja menos encabeçada pela comunicação e mais por áreas ainda mais estratégicas das companhias", afirma Gláucia.

GRI - GLOBAL REPORTING INITIATIVE
            O que é padrão internacional para divulgação de informações econômicas, sociais e ambientais de uma empresa. Foi desenvolvido por uma organização independente com sede na Holanda (também chamada GRI). Os primeiros relatórios GRI foram publicados em 2000.
Quem usa são 850 companhias no mundo, entre elas Microsoft, Unilever e British Petroleum
Quantas empresas adotam no Brasil cerca de 50, entre elas Philips, Usiminas, CPFL, Itaú, Medley e Serasa. A pioneira foi a Natura
Vantagens:
- As empresas brasileiras podem comparar seus balanços sociais com os das estrangeiras que usam o mesmo modelo.
- É o padrão predileto dos analistas que investem em empresas sustentáveis.

Vulnerabilidades:
- Permite que as companhias escolham os indicadores que querem reportar, o que dá espaço para que elas se esquivem de assuntos delicados ou polêmicos.
- Não obriga as empresas a submeter o relatório a auditoria externa.

 

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